O primeiro debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência da República no segundo turno das eleições de 2026, foi marcado por acusações, provocações e confrontos pessoais. Realizado pela TV Bandeirantes na noite de domingo (18), o encontro durou cerca de duas horas e teve maior concentração de propostas no terceiro bloco, depois de os dois primeiros serem dominados por questionamentos envolvendo familiares, aliados políticos e governos anteriores.
O debate representou o primeiro confronto direto entre os dois presidenciáveis desde o início da campanha. Ambos haviam ficado de fora dos debates promovidos pela imprensa durante o primeiro turno e chegaram à etapa final em uma disputa apertada, na qual os votos de eleitores indecisos e daqueles que não compareceram à primeira votação podem ter importância para o resultado.
No primeiro bloco, Lula questionou Flávio sobre recursos que teriam sido solicitados ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O presidente também cobrou explicações sobre uma proposta relacionada à identificação de projéteis balísticos. Flávio rejeitou as acusações e afirmou que eram mentiras.
O senador, por sua vez, direcionou perguntas ao presidente sobre seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e sobre uma suposta relação de Lula com a empresária Roberta Luchsinger. O presidente respondeu que o assunto envolvendo a empresária era uma questão da Polícia Federal e também criticou a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, especialmente em relação às tarifas comerciais impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump ao Brasil.
Um dos momentos de maior repercussão ocorreu quando Flávio afirmou que 75% dos presidiários teriam votado em Lula no primeiro turno. Em resposta, o presidente declarou que gostaria de receber o voto de todos os presos, inclusive do pai do adversário, em referência a Jair Bolsonaro, que, segundo o texto original da reportagem, estava preso por tentativa de golpe de Estado. A fala provocou reações e risadas na plateia.
No segundo bloco, os candidatos discutiram propostas para ampliar o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Flávio reconheceu que a saúde não apresentou bons resultados durante o governo de seu pai e atribuiu parte das dificuldades à pandemia de Covid-19. Como alternativa, defendeu a adoção de tecnologias como prontuário eletrônico integrado, telemedicina e inteligência artificial, com o objetivo de levar ao sistema público padrões de atendimento semelhantes aos de hospitais privados de referência.
Lula citou o programa Mais Médicos, criticou a gestão anterior e questionou se a proposta do adversário poderia abrir caminho para a privatização do SUS. O presidente também acusou o governo Bolsonaro de contribuir para a deterioração de hospitais federais no Rio de Janeiro.
A discussão avançou para temas relacionados à segurança pública, às saídas temporárias de presos e à economia. Flávio defendeu a criação de um Ministério da Prosperidade e apresentou uma proposta para renegociar dívidas bancárias. Lula, por sua vez, mencionou o salário mínimo e as aposentadorias para sustentar que as políticas de seu governo contribuíram para preservar o poder de compra da população.
A escala de trabalho 6×1 também entrou no debate. Flávio afirmou ter votado a favor da proposta de mudança após ouvir trabalhadores, enquanto Lula questionou o conhecimento do senador sobre a realidade de quem depende do trabalho diário. Os candidatos ainda divergiram sobre os efeitos da conjuntura internacional na inflação e sobre as medidas necessárias para estimular a economia.
No terceiro bloco, as propostas econômicas ganharam mais espaço. Flávio defendeu a ampliação do acesso à internet como forma de aumentar a produtividade, enquanto Lula destacou investimentos em inovação industrial e economia verde. O presidente também afirmou que a responsabilidade fiscal deve caminhar junto com medidas de estímulo ao consumo e proteção social.
A corrupção voltou a dominar o confronto quando Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico, incluindo os de seus familiares. O senador declarou que não tinha nada a esconder, mas, conforme o relato do debate, não confirmou se aceitaria a proposta.
As relações entre a família Bolsonaro e o governo dos Estados Unidos também foram alvo de acusações. Lula criticou o que classificou como subordinação aos interesses norte-americanos. Flávio, em contrapartida, acusou o presidente de defender organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, além de abordar manifestações envolvendo Donald Trump.
O encerramento foi marcado por novos momentos de tensão. Flávio caminhou pelo palco e ficou atrás de Lula enquanto o presidente fazia suas considerações finais, provocando reações de parte da plateia. Os mediadores precisaram pedir silêncio diante de vaias, aplausos e gritos.
Ao retomar a palavra, Lula afirmou que o adversário demonstrava preocupação com a mobilização de seus apoiadores e voltou a defender os resultados de sua gestão. Flávio insistiu nas críticas ao presidente, retomou a proposta de criar o Ministério da Prosperidade e encerrou sua participação pedindo votos e destacando a segurança pública.
Levantamentos eleitorais divulgados na semana anterior ao debate. Uma pesquisa PoderData/Aya, realizada entre 13 e 15 de outubro com 3 mil entrevistados, apontava empate entre os candidatos nos votos válidos, com 50% para cada um e margem de erro de 1,8 ponto percentual. Já o Datafolha indicava Flávio com 47% das intenções de voto e Lula com 45%, resultado considerado empate técnico diante da margem de erro de dois pontos percentuais.
O próximo debate entre os candidatos estava previsto, segundo o calendário informado na reportagem, para sexta-feira (23), na TV Globo, após o Jornal Nacional, com mediação do jornalista César Tralli.
O confronto na Band evidenciou a disputa pela conquista dos eleitores que ainda não definiram o voto. Apesar das acusações e dos embates pessoais, temas como saúde, endividamento, jornada de trabalho, produtividade e segurança pública também apareceram ao longo do encontro, embora tenham dividido espaço com os ataques entre os candidatos.



