A medula óssea desempenha um papel fundamental no funcionamento do organismo, sendo responsável pela produção das células do sangue, como glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Em algumas doenças, porém, ela deixa de funcionar adequadamente e pode ser necessário substituí-la por meio de um transplante.
Segundo a hematologista Giovanna Steffenello, do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC), o transplante de medula óssea é indicado principalmente para casos de leucemias agudas e crônicas, síndromes mielodisplásicas, linfomas e mielomas que não apresentam resposta satisfatória a outros tratamentos. O procedimento também pode ser utilizado em doenças não malignas, como aplasia de medula, algumas imunodeficiências e determinadas doenças genéticas.
A compatibilidade entre doador e paciente é avaliada por meio da tipagem HLA (antígeno leucocitário humano), exame que identifica marcadores genéticos presentes nas células. Quanto maior a compatibilidade, menor tende a ser o risco de rejeição e de outras complicações relacionadas ao transplante. Entre irmãos, a possibilidade de compatibilidade total é de aproximadamente 25%. Quando não existe um doador familiar compatível, a busca é realizada em registros nacionais e internacionais.
Quem pode ser doador
No Brasil, o cadastro de voluntários é realizado pelo Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). Segundo informações da instituição, o registro está entre os maiores bancos de doadores de medula óssea do mundo.
O hematologista Fernando Barroso, chefe da Unidade de Hematologia e Hemoterapia do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (CH-UFC), explica que o cadastro pode ser feito nos hemocentros de todo o país.
Para se tornar um potencial doador, é necessário ter entre 18 e 35 anos, apresentar documento oficial de identificação com foto e estar em boas condições de saúde. Algumas doenças e condições clínicas impedem o cadastro ou a doação, incluindo histórico de determinados tipos de câncer e algumas doenças autoimunes.
A compatibilidade depende de características genéticas que variam entre diferentes grupos populacionais. Por isso, pacientes pertencentes a grupos menos representados nos registros podem encontrar maior dificuldade para localizar um doador compatível. A ampliação e a diversidade dos cadastros são, portanto, importantes para aumentar as possibilidades de encontrar uma correspondência.
Depois de se cadastrar, o voluntário também deve manter os dados pessoais, como endereço e telefone, atualizados. Essas informações são fundamentais caso seja identificada uma possível compatibilidade.
Como é feita a doação
Antes da doação, tanto o paciente quanto o voluntário passam por exames para verificar as condições clínicas e confirmar a possibilidade do procedimento.
De acordo com a hematologista Vaneuza Funke, chefe do Setor de Gestão da Pesquisa e da Inovação Tecnológica do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), existem duas principais formas de coleta das células da medula óssea.
Uma delas é realizada por meio do sangue periférico. Nesse caso, o doador recebe medicamentos para estimular a produção e a circulação das células-tronco no sangue. A coleta ocorre geralmente entre um e dois dias antes do transplante e não exige internação na maioria dos casos, embora possa ser necessário o uso de um cateter em determinadas situações.
A outra forma é feita por meio de uma punção do osso da bacia. Nesse procedimento, o doador é submetido à anestesia e precisa ser internado para a coleta. Segundo a especialista, a recuperação costuma ser rápida nos dois métodos, com possibilidade de alta cerca de 24 horas após o procedimento.
Depois da coleta, as células são infundidas no paciente, que permanece internado durante o período necessário para que ocorra a chamada “pega” da medula. É nessa etapa que as novas células começam a produzir novamente os elementos do sangue.
O relato de Rômulo, que passou pelo procedimento como doador, reforça a experiência de quem participa do processo. Segundo ele, apesar de ter sido seu primeiro procedimento cirúrgico com anestesia geral, a recuperação ocorreu de forma rápida.
Para Vaneuza Funke, a decisão de se cadastrar como doador representa uma possibilidade concreta de ajudar pacientes que precisam de um transplante. A doação, segundo a médica, deve ser uma escolha espontânea e consciente, mas pode representar uma oportunidade de vida para outra pessoa e sua família.



