O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou a atuação do governo brasileiro no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). A manifestação consta em um documento anual enviado ao Congresso norte-americano na terça-feira (15), no qual o governo dos EUA apresenta avaliações sobre países relacionados ao trânsito ou à produção de drogas ilícitas.
No documento, Trump afirma que, enquanto outros governos do Hemisfério Ocidental adotaram medidas para reduzir o tráfico de drogas e combater organizações criminosas, o governo brasileiro não teria enfrentado de forma suficiente o PCC e o Comando Vermelho. Segundo o presidente norte-americano, os grupos teriam transformado o Brasil em um centro para fluxos internacionais de cocaína.
Trump também classificou as duas organizações como uma ameaça à segurança internacional e defendeu que o governo brasileiro adote medidas mais intensas contra as facções.
A avaliação ocorre após os Estados Unidos designarem oficialmente o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês), em decisão anunciada pelo Departamento de Estado em maio e efetivada em junho de 2026. A classificação amplia os instrumentos disponíveis às autoridades norte-americanas para aplicar sanções e outras medidas contra pessoas e entidades relacionadas aos grupos.
O governo brasileiro contestou a classificação e defendeu que o enfrentamento às organizações criminosas seja conduzido pelo Brasil, com cooperação internacional e respeito à soberania nacional.
Brasil contesta avaliação
Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) rejeitou a avaliação de que existam falhas ou omissões do governo brasileiro no combate ao crime organizado transnacional.
A pasta citou ações recentes de segurança pública, entre elas a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, e o Programa Brasil contra o Crime Organizado. O ministério também destacou operações realizadas pelas forças de segurança em todo o país.
Dados divulgados pelo próprio MJSP mostram que, em uma operação nacional realizada entre 17 e 28 de agosto, foram cumpridos 850 mandados de prisão, 494 pessoas foram presas e 923 quilos de drogas foram apreendidos. As investigações também resultaram em pedidos de bloqueio de R$ 409 milhões em bens e valores relacionados aos alvos.
O ministério também afirmou que a manifestação norte-americana não consideraria a cooperação existente entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado transnacional. Segundo a pasta, o governo brasileiro apresentou propostas de ações conjuntas envolvendo lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e combate ao tráfico de armas.
Brasil não aparece entre países apontados como principais produtores ou corredores
Apesar das críticas de Trump, o documento não classifica o Brasil entre os países apontados como aqueles que teriam falhado de maneira demonstrável no cumprimento de compromissos internacionais de combate às drogas.
A avaliação mais severa foi direcionada a Afeganistão, Bolívia, Birmânia, Colômbia e Venezuela. O Brasil também não aparece na relação apresentada no documento como os principais países de trânsito ou produção de drogas ilícitas.
O próprio documento ressalta que a inclusão nessa lista não significa necessariamente que o governo do país não coopere com os Estados Unidos ou não adote medidas para combater o tráfico de drogas.
Críticas e elogios a outros governos
No relatório, Trump também faz avaliações sobre outros países do continente. O documento registra posições favoráveis em relação a governos como os da Argentina, Equador e El Salvador e menciona mudanças políticas recentes na Bolívia, Colômbia, Peru e Venezuela.
Ao mesmo tempo, o presidente norte-americano faz críticas a países como México e Canadá, cobrando medidas adicionais para combater o tráfico de drogas e o fluxo de substâncias utilizadas na produção de drogas sintéticas.
Sobre a China, o documento afirma que o país continua sendo uma importante fonte de produtos químicos precursores utilizados na produção ilegal de fentanil, metanfetamina e outras drogas sintéticas. Trump defendeu medidas adicionais do governo chinês para controlar a exportação dessas substâncias.
A manifestação ocorre em um contexto de ampliação das ações brasileiras contra organizações criminosas. Em setembro, o MJSP informou a realização de operações integradas contra grupos envolvidos em tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, incluindo ações com participação de forças de segurança de diferentes estados.



