Casos recentes de feminicídio, estupro de adolescentes e violência doméstica voltaram a colocar em evidência o debate sobre a misoginia no Brasil — prática caracterizada pelo ódio e aversão às mulheres e pela defesa da manutenção de privilégios históricos masculinos.
O tema ganhou ainda mais relevância após o Senado Federal do Brasil aprovar, nesta semana, um projeto de lei que criminaliza a misoginia. A proposta inclui esse tipo de conduta entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo, com penas que variam de dois a cinco anos de prisão. O texto segue agora para análise da Câmara dos Deputados do Brasil.
Especialistas apontam que a misoginia é um fenômeno estrutural, presente em diferentes esferas sociais, culturais e econômicas. Nos últimos anos, conteúdos com esse teor têm se espalhado com força em fóruns online e redes sociais, contribuindo para a naturalização de discursos de ódio e, em alguns casos, incentivando a violência.
Um dos episódios recentes que chamaram atenção foi a morte da policial Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça em seu apartamento, em São Paulo. As investigações indicam que o principal suspeito, seu marido, utilizava expressões comuns em grupos misóginos na internet, como “macho alfa” e “mulher beta”, termos associados à ideia de superioridade masculina e submissão feminina.
Outro caso que gerou repercussão foi a circulação, nas redes sociais, de vídeos em que homens simulam agressões contra mulheres após serem rejeitados, reforçando a preocupação com a disseminação desse tipo de conteúdo, especialmente entre jovens.
Pesquisadores alertam para o crescimento da chamada “machosfera”, conjunto de espaços digitais que promovem discursos antifeministas e modelos rígidos de masculinidade. Estudos do laboratório NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificaram mais de 130 mil canais com conteúdos misóginos em plataformas como o YouTube, muitas vezes disfarçados em temas como relacionamentos ou desenvolvimento pessoal.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram a gravidade do cenário: o país registra, em média, quatro feminicídios por dia. Em 2025, foram contabilizados 1.547 casos, mantendo uma tendência de alta observada desde 2015.
A proposta aprovada no Senado também gerou debate sobre os limites da liberdade de expressão. Parlamentares da oposição tentaram incluir exceções para manifestações de cunho religioso ou opinativo, mas as sugestões foram rejeitadas pelo plenário.
Diante do aumento dos casos de violência, autoridades reforçam a importância da denúncia. Vítimas ou testemunhas podem buscar ajuda por meio da Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia. Também é possível acionar o 190, da Polícia Militar, ou registrar ocorrências em delegacias especializadas e unidades de atendimento à mulher.



